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domingo, 23 de janeiro de 2011

Populista, Marine Le Pen já provoca medo na política francesa

Marine e seu pai, Jean-Marie Le Pen, participam do congresso da Frente Nacional (FN), no último dia 16, em Paris. Foto: Reuters
Lúcia Müzell
Direto de Paris

Uma sombra paira no ar na política francesa, na medida em que a corrida presidencial para as eleições de 2012 se acelera. E se, 10 anos depois do fatídico embate Jacques Chirac x Jean Marie Le Pen, a extrema-direita fosse capaz de conquistar mais uma vez uma vaga no segundo turno? Na mesma semana em que Le Pen passou a presidência do partido para a filha, Marine, duas pesquisas eleitorais revelaram o impensável: a Frente Nacional (FN), agora sob o comando da herdeira do fundador da sigla, conta com confortáveis 17-18% de intenções de voto - praticamente o mesmo escore que levou a FN ao segundo turno em 2002.

O mais impressionante das pesquisas dos institutos CSA e BVA foi o fato que a Frente Nacional se manteve estável nos 17-18%, quaisquer que fossem os adversários, e apenas seis pontos atrás da presidente do Partido Socialista, Martine Aubry. Uma terceira pesquisa, encomendada pelo jornal Libération, concluiu que 52% dos entrevistados consideram a candidatura de Marine mais "credível" que a de seu pai, e 48% a acham menos controversa. Nada mal para uma candidata que concorre pela primeira vez à presidência. Péssimo se essa candidata encarna uma política radical de intolerância religiosa, expulsão de estrangeiros e abolição de tratados como a União Europeia.

Com uma embalagem mais carismática que o pai e um discurso carregado em populismo, a loira de olhos azuis, 42 anos, está decidida a conquistar o eleitorado de direita nascido na classe média baixa, com pouca instrução e que vem sentindo os efeitos da crise econômica e financeira estourada em 2008.

Calma e sorridente, a filha de Le Pen encarna com perfeição a estratégia de tentar humanizar o partido, desvinculando-o da tradicional imagem ríspida dos líderes de extrema-direita. Sem abandonar argumentos caros à sigla, como atribuir à imigração as taxas crescentes de desemprego na França, Marine cuida de cada palavra que sai de sua boca para maquiar as convicções xenofóbicas que marcam a cartilha do partido do início ao fim. Defende com cada vez mais ardor dos valores da República francesa - liberdade, igualdade, fraternidade - e a laicidade, mesmo que uma forma um tanto deturpada. A rejeição aos estrangeiros agora se confunde cada vez mais com a noção de "islamização da França", no intuito nacionalista de reforçar a luta pela identidade dos chamados franceses "de raiz".

"O discurso em relação à imigração mudou muito de 2007 para cá, não apenas na extrema-direita francesa, como também na Suíça, com o UDC e a interdição dos minaretes, ou na Holanda, com o Partido da Liberdade, ou ainda o FPO, na Áustria. Agora, todos eles visam o Islã com todas as forças e sustentam que o multiculturalismo não é nem possível, nem desejável", estima Jean-Yves Camus, um dos maiores especialistas em extrema-direita da França. Na visão dele, o islamismo ocupou o espaço deixado pelo comunismo no imaginário dos radicais de direita. "O Islã aparece como uma cultura, e não como uma religião, intrinsecamente incompatível com o desenvolvimento no solo francês. Não importa se o muçulmano é praticante ou não."

No plano econômico, Marine propõe um retorno radical do protecionismo, que inclui a saída da União Europeia, a readoção da moeda franco - "o euro é o causador do empobrecimento do nosso país" - e o desestímulo às importações. Suas propostas, não à toa, também se aproximam da extrema-esquerda: a futura candidata é contra a globalização e defende a proteção social e o aumento das políticas de emprego e moradia - apenas para os franceses, é claro. "É absurdo continuarmos deixando entrar centenas de milhares de estrangeiros no nosso país ao mesmo tempo que temos cinco milhões de desempregados", disse, durante a posse na presidência do partido.

Para Camus, ainda é muito cedo para se tirar qualquer conclusão sobre qual vai ser o peso de Marine nas próximas eleições. O pesquisador do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS) acha que o resultado das pesquisas divulgadas nesta semana podem ser apenas reflexo da superexposição dela na mídia, após ter assumido o comando da Frente Nacional, no domingo.

Seja como for, o temor de um segundo turno entre Nicolas Sarkozy e Marine Le Pen já faz as lideranças da esquerda começarem a evocar uma candidatura única. Resta convencer os partidos menores, como o Partido Verde e o Comunista, a se esconderem atrás de uma única liderança socialista, o maior partido de oposição da França.

E não é somente à esquerda que a candidata da Frente Nacional preocupa: no partido de Sarkozy, UMP, os dirigentes não são ingênuos de pensar que uma nova figura, representando sem pudores os interesses dos franceses e apenas dos franceses, passaria despercebida no caminho do atual presidente à reeleição. "Sarkozy está enfraquecido politicamente, e neste momento devem estar ocorrendo discussões internas no partido para decidir se o UMP vai abrir o diálogo com a Frente Nacional para 2012, ou se vai preferir enfrentá-la", disse Camus.

Israel: ataque à frota humanitária estava no direito internacional

Homem caminha em meio aos destroços no local de um ataque de carro-bomba em Bagdá. Foto: AP

Homem caminha em meio aos destroços no local de um ataque de carro-bomba em Bagdá
Foto: AP

Cinco carros-bomba explodiram neste domingo em Bagdá e seus arredores, causando a morte de seis pessoas e deixando 29 feridos, disseram fontes de segurança, em uma série de atentados aparentemente coordenados durante um importante ritual xiita.

Quatro veículos explodiram na capital iraquiana. No distrito de maioria xiita Kadhimiya, em Bagdá, um carro-bomba explodiu perto de um ônibus que transportava fiéis, provocando a morte de uma pessoa e deixando sete feridos, segundo fontes da polícia e do Ministério do Interior.

Outros carros-bomba foram detonados perto de um hotel no centro de Bagdá e de duas patrulhas policiais no distrito de Ilaam e em al-Mesbah, na região central de Bagdá, mantando três pessoas, incluindo um policial, afirmaram as fontes.

Outro ataque com carro-bomba causou a morte de duas pessoas e deixou quatro feridos em Taji, cerca de 20 km ao norte de Bagdá, disse uma autoridade do ministério.

O escritório do governo que coordena a segurança na capital disse em comunicado que os atentados tinham como principal alvo os peregrinos xiitas que realizavam viagem à cidade sagrada de Kerbala para o ritual de Arbain.

De acordo com comunicado, dois membros das forças de segurança foram mortos e cinco ficaram feridos nos ataques em Bagdá.

Israel: ataque à frota humanitária estava no direito internacional


O bloqueio marítimo à Faixa de Gaza e o violento ataque executado no ano passado por Israel para impedir que uma frota com ajuda humanitária rompesse o bloqueio, estavam de acordo com o direito internacional, segundo relatório da comissão de investigação israelense publicado este domingo e que provocou a indignação da Turquia e do Hamas.

O informe preliminar da comissão, composta por seis membros, entre eles dois observadores internacionais, responsáveis por examinar os aspectos jurídicos do ataque da Marinha israelense no qual morreram nove ativistas turcos, inocentou o Estado hebreu por unanimidade. "A imposição de um bloqueio marítimo à Faixa de Gaza, levando em consideração as razões de segurança e os esforços de Israel para cumprir com suas obrigações humanitárias, era legal e de acordo com o direito internacional", destaca o relatório da comissão dirigida pelo juiz Yaacov Tirkel.

Segundo o documento, o uso da força durante a violenta inspeção do navio turco "Mavi Marmara", barco almirante da frota humanitária internacional, "foi legal e conforme ao direito internacional". No entanto, em seis dos 133 casos de uso da força pelos oficiais israelense, a comissão Tirkel se absteve de apresentar conclusões, considerando que "não dispõe de informações suficientes".

Ao mesmo tempo, a comissão expressou tristeza pelas "lamentáveis consequências em perdas de vidas humanas e feridos". O gabinete do premiê israelense, Benjamin Netanyahu, saudou imediatamente as conclusões da comissão que, segundo avaliou, provam que o uso da força por Israel se justificava "enquanto ato de autodefesa".

Ao contrário, o relatório foi condenado pelo movimento islamita Hamas, no poder em Gaza, e severamente questionado pelo premiê turco, Recep Tayyip Erdogan, e criticado por organizações israelenses de defesa dos direitos humanos. "Este relatório confirma a ausência de justiça na 'entidade sionista' (Israel)", declarou Fawzi Barhum, porta-voz do Hamas, que controla a Faixa de Gaza desde 2007.

"É uma tentativa desesperada de legitimar os crimes da ocupação de melhorar a imagem (de Israel) ao ocultar este crime", completou. O porta-voz disse ainda que é "necessário iniciar gestões concretas para julgar os autores deste crime nas instâncias internacionais". O premiê turco também repudiou ferozmente o informe israelense e questionou sua validade.

"Como pode ser que um relatório preparado e ordenado no mesmo país (Israel) possa ter algum valor?", questionou Erdogan. "Vamos acompanhar este caso: este informe não tem nenhum crédito", disse a jornalistas em Ancara, citado pela agência de notícias Anatolia.

A comissão de investigação organizada pela Turquia em resposta à criação da comissão investigadora israelense também criticou o informe israelense, declarando-se "estupefata e consternada" por suas conclusões que isentam o exército israelense, noticiou a Anatolia. "O ataque praticado por Israel em violação do direito em tempo de paz ou de guerra está também em contradição com todos os princípios, regras e normas internacionais", afirmou em declaração a comissão reunida em Ancara, segundo a Anatolia.

A morte de nove turcos durante a operação israelense provocou uma grande crise nas relações entre Israel e Turquia, além de ter gerado uma onda de críticas internacionais. As atribuições da comissão israelense se limitaram a verificar a conformidade com o direito internacional da captura e do embargo marítimo.

Em setembro passado, o Conselho dos Direitos Humanos da ONU havia dado seu aval a um informe que levantasse a existência de "provas" para "sustentar um processo" contra Israel depois do assalto. Mas o que preocupa Israel é, sobretudo, a aguardada publicação de um parecer da comissão da ONU ordenada pelo secretário-geral da organização, Ban Ki-Moon, e presidida pelo ex-premiê neozelandês Geoffrey Palmer.














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